Nesta seção divulgamos narrativas experimentais e literárias, de ficção ou depoimentos pessoais acerca do uso de psicoativos, de membros do NEIP ou não. Também incluímos alguns textos de autores clássicos que trataram do tema e que são pouco conhecidos. O primeiro destes é o poema sobre o haxixe do herói da luta pela independência cubana no século XIX, José Martí. Esperamos ampliar o escopo desta seção como um fórum mais amplo sobre a relação entre psicoativos, experimentalismo e literatura.
Em Gasteiz (Vitória), capital do país basco, comprei um extrato de Salvia divinorum. Ao experimentá-la fumando uma pequena quantia num cachimbo de água e prendendo fortemente a fumaça senti um dos efeitos mais fortes que já tive com psicodélicos. A sensação foi fulminante, antes de soltar a fumaça comecei a sentir um efeito e de súbito literalmente decolei, por alguns segundos perde-se completamente a noção da própria autoconsciêcia e mergulha-se num turbilhão em que senti-me fundir-me com o objeto que eu olhava (uma mancha no tapete). Na segunda experiência, dias mais tarde, aumentei a dose e literalmente perdi a noção de identidade, de quem eu era, de onde estava e mergulhei num estado onírico. Sem perceber caí lentamente para o lado e S. dirigiu-me a palavra perguntando se eu não queria me sentar, o que fiz e depois deitei-me, mas durante todo esse tempo eu não percebi nada disso, depois de segurar muito a fumaça comecei a sentir o efeito e antes de soltá-la comecei a ver o ponto que eu observava perder as formas, como se estivesse se derretendo como cera quente e começando a girar (mais tarde dei-me conta de que eu tinha girado a cabeça caindo para o lado) e sentia-me num universo completamente irreal, onde o peso da gravidade como que me esmagava fixando-me ao solo, sem noção de em cima ou em baixo, num turbilhão em que minha própria consciência se deixava arrastar, no meio desse vórtice eu via/escutava a S. apontando-me uma porta e dizendo que eu devia entrar por ela, após deitar-me recobrei a consciência de que era uma experiência com sálvia e balbuciei que estava bem, mas suava e ofegava muito e sentia-me com calor e taquicardia. A salvinorina é um dos mais fortes psicodélicos, com uma patamar de ação a partir de 200 microgramas, o que só ocorre com o LSD.
Após algumas vezes, só e com amigos, podemos ver que a sálvia não é um alucinógeno psicodélico comum, mais bem poderíamos chamá-la de onirógena e despersonalizante, Um efeito típico é uma noção de perda ou saída da consciência e/ou do corpo, mesmo porque a consciência é antes de tudo, a consciência de um corpo, e com a sálvia parecemos uma consciência sem corpo. Ou talvez, uma consciência sem autoconsciência. Na terceira vez que tomei senti-me como num desenho animado em que tudo ao meu redor se liquefazia, se desmilinguia, e os objetos, o tapete ou a parede, falavam comigo como personagens de um desenho animado, dizendo: ah!, eis vc aqui de volta!, e eu literalmente caia dentro do que eu observava e sentia esse desmilinguir-se de tudo assim como de si mesmo, tive um temor de não poder dominar meu corpo, nem levantar-me e nem sequer falar, mas quando tentei articulei facilmente as palavras e chamei S. para o quarto, sua chegada deu-me um pouso e um porto seguro. Da mesma forma, com S. e S. ao meu lado senti-me outra vez caindo num abismo formado pela linha do tapete no solo e amparei-me dando as mãos para elas, o que assegurou-me uma sensação de apoio e calor humano.
S. descreveu a experiência como um mergulho na indistinção. De fato, em todas as viagens psiconáuticas sempre busco esse ápice, quando mergulhamos num vórtice, um rafting psicodélico, no fluxo energético de tudo que palpita ao nosso lado como uma fonte de puras emanações onde navegamos e perdemos a noção dos limites entre todas as coisas e nós próprios. Mas esses momentos são raros e passageiros, apenas doses bem fortes podem fixá-los por mais tempo quando se consegue um estado de concentração, de meditação, de contemplação beatífica da clara luz da realidade. Para chegar a eles há sempre caminhos difíceis.Os ácidos e cogumelos podem ser também dispersivos, podemos vagar no “samsara” sem encontrar a luz para derretermo-nos nela, ficando ao invés disso em jogos mentais e em verbalizações internas ou externas de tipo obsessivo, auto-referente e /ou banais. Fixar o pensamento exige técnicas de êxtase ou um firme propósito filosófico no empreendimento que concentre o pensamento em questões elevadas. Com a ayahuasca, o ritual das religiões as vezes ajuda mas na maioria das vezes, para mim, atrapalha, pois raramente consigo esse “mergulho na indistinção” em torno dos hinos e dos rituais.
Com a sálvia, entretanto, esse mergulho é instantâneo, fulminante, lançando-nos num estado tão distinto, tão bizarro e tão indescritível, que quase sempre perde-se a noção de que se está realizando uma experiência e mergulha-se em outros ambientes que na verdade são outros universos tão distintos que diria-se outra galáxia, outra forma de vida. Esse mergulho é imediato, antes de se expirar a fumaça. O resto do tempo mantém-nos com uma sensibilidade psicodélica acentuada, uma empatia calorosa e sensual a là ecstasy e uma curiosidade interpretativa sobre o que se vivenciou naqueles segundos ou minutos de intensidade total, que chega as vezes a uma espécie de amnésia e até mesmo comportamentos sonambúlicos.
Na verdade, ouso dizer que com a sálvia tive os efeitos mais intensos de minha vida, a sensação mais completa de mergulho total num esfera em que se mantém uma consciência mas que perdeu a referência da identidade, da localização, da sua articulação com o corpo, da sua fronteira egóica e que assiste uma completa explosão perceptiva que exibe paisagens de uma dimensão extraterrestre.
B. referia-se a um suposto mecanismo neurofisiológico da “viagem astral” que residiria numa desconexão entre o hipocampo, onde estaria a memória e a sensibilidade proprioceptiva. A imagem do eu não se relacionando com o eu físico produziria uma sentir-se fora do corpo, ou o que se chamou em jargão psiquiátrico, bird-eye image, uma suposta visão de cima do campo onde se encontra o sujeito. Talvez tais elementos sejam ressaltados na experiência da salvia. O eu desvincula-se do sistema proprioceptivo produzindo um estado peculiar de dissoaciação psíquica.
Preciso ler o livro de Catherine Clément, Syncope. The philosophy of rapture, ou ravissement, em francês (arrebatamento). A noção de síncope, presente na gramática, na música, na medicina, é usada como metáfora para um estado de arrebatamento, de rompimento do fio da narrativa da consciência em seu desenrolar rotineiro e linear para um estado de vôo mental, de êxtase ou arrebatamento, o qual o ocidente teme e persegue, proscrevendo e amaldiçoando tais comportamentos contemplativos extáticos e beatíficos.
Obtive mais importando dos EUA do site Sage wisdom, de Daniel Siebert. Que milagre que um psicodélico tão forte ainda esteja disponível legalmente! A forma do extrato alcoólico para administração sublingual oferece um efeito mais prolongado, de até duas horas. Estou esperando achar um local adequado para fazer a prova.
04-10- 04 – 2a experiência com a Sálvia divinorum (fumada) Local- São Paulo; casa de amigos. Sálvia divinorum- Principal substância ativa: salvinorina Região de origem da planta: México (Oaxaca)
Relato
No dia 04 de outubro de 2004 experimentei a Salvia na casa de amigos. Na primeira tentativa não alcancei o ápice da experiência pois não fumei adequadamente, deveria Ter segurado mais tempo a substância nos pulmões. No entanto, nessa primeira vez senti meu corpo inteiro formigando, adormecendo, e mesmo eu vendo as pessoas ao meu redor, parecia que eu não estava ali. Não conseguia me comunicar, era como se todos os sentidos estivessem desconectados. Veio-me então um sentimento de estranheza que logo foi passando juntamente com o formigamento, até que o corpo foi voltando e parecia que os fios neuronais haviam sido conectados novamente.
Na Segunda tentativa a experiência foi fascinante. Em poucos segundos sai fora do meu corpo, então fechei os olhos para fugir das influências externas e fui sugada por um buraco negro que me engolia. Era muito escuro e girava rapidamente. De repente senti como se as raízes de uma árvore muito grande estivessem crescendo desde a planta dos meus pés até o topo da minha cabeça continuando até o infinito, e a casca da árvore era grosa e torcida. Quando tentei abrir os olhos vi vários pontos de luz espalhados pela sala, quase que ofuscando minha visão. Então olhei para uma imagem que estava no computador, e me tornei a chama de fogo que estava queimando. Foi um sentimento de fusão com o fogo, de transformação. Mas era tão forte que tive que pedir p/ tirarem a imagem de lá, pois estava me incomodando. Foi quando começou a passar uma imagem de um espiral girando, e foi incrível, senti as células do meu corpo girando em espiral e foi uma sensação orgânica que me causou intensa agonia.
Durante a experiência senti uma total desfiguração do meu eu. Uma experiência de ruptura entre a consciência e o corpo. O corpo parecia todo anestesiado, depois começou a formigar e foi voltando ao normal. Mas a rapidez com que a Salvia rompe com a consciência corporal é instigante, pois aniquila com o senso de quem você é, e com a existência real do que está ao redor. Tanto que vieram as seguintes questões: “Eu existo mesmo? Essas pessoas são reais?”, foi então que precisei tocar a mão de alguém que estava sentado próximo, e foi um alívio, me trouxe de volta para o meu corpo e para a sala. Nesse instante percebi que era realmente eu quem estava ali e então me lembrei da Salvia.
Por um tempo tudo ficou muito estranho, as pessoas conversavam mas nada estava fazendo muito sentido. Fiquei um pouco hipnotizada pelas imagens que estavam sendo passadas no computador, e percebi que a sensibilidade pelas cores e formas geométricas estava ampliada. As mandalas me direcionavam fortemente para o meu centro, enquanto outras imagens me direcionava do centro para as extremidades, gerando amplitude e expansão interior.
A viagem com a Salvia é muito rápida e brusca, acontece um aniquilamento intenso da personalidade e da dimensão corporal no espaço e no tempo. Percebi a experiência como uma reação físico-química imediata, que rompe a comunicação entre o corpo e a consciência, destruindo temporariamente o sentido de tudo. Talvez seja por esse motivo que a experiência com a Salvia pode ser tão assustadora, pois mostra ao ser humano, que sua principal ilusão, a de que possui o controle do corpo e da mente, pode ser transformada em questão de segundos através de uma vivência de completa distorção da realidade.
19.09.04 – 2a experiência com a Sálvia divinorum (fumada) Local- São Paulo; casa de amigos. Sálvia divinorum- Principal substância ativa: salvinorina Região de origem da planta: México (Oaxaca)
Relato redigido no dia seguinte à experiência:
Fumei a Sálvia divinorium (“la pastora”, como é chamada na região mazateca do México) pela segunda vez com o um casal de amigos, na casa deles. Quase imediatamente depois da primeira tragada, ainda quando estava segurando a fumaça, já comecei a sentir um forte efeito. Estava de olhos fechados e tive visões de mandalas que se movimentavam dentro da minha mente. Quando abri os olhos, senti como se tivesse acontecido uma espécie de explosão na minha mente, e foi como se “eu” tivesse saído de mim. Tive a estranha sensação de que “eu” não estava mais em “mim mesma” ou “dentro de mim”. Era como se “eu” (ou o que posso chamar agora de minha consciência) não estivesse mais no mesmo lugar. Era uma sensação de perda da consciência no sentido dela ir para outro lugar: estar fora de si e observar-se de um outro ponto de vista. Entrei em pânico. Tive medo. Foi horrível sentir que “meu eu” (minha consciência) estava indo embora ou que eu saía de mim, do meu corpo. Eu senti o corpo vazio, como uma caverna escura. Tive a sensação de que meu corpo, e meu rosto principalmente, se desfazia. Eu não era mais eu mesma, perdia o meu corpo e o meu “eu”. Senti um pânico terrível. Não suportei a sensação de estar me desfazendo e me perdendo. Corri para o banheiro. Queria me ver no espelho para saber se “eu” ainda estava lá, no meu corpo. Quando vi minha face no espelho, me acalmei um pouco, mas tive medo de ficar ali, sozinha. Voltei correndo para o quarto, onde estavam meus amigos, para pedir a ajuda deles. Ainda estava bem assustada e me sentia tonta com toda essa movimentação. Sentei. Olhei para o casal de amigos e perguntei algo como “eu estou parecendo bem, estou igual?” Eu queria saber se a minha aparência era a mesma, quer dizer, se era eu mesma que estava ali. Eles responderam que eu parecia bem. Eu segurei na mão deles. A sensação de pânico foi diminuindo. Eu respirei fundo, me recostei, procurei relaxar, lembrando que tínhamos fumado a Sálvia, que o efeito dela dura pouco e que provavelmente ia me sentir bem (“inteira” como antes) em breve.
Acho que todas essas sensações duraram cerca de 10 minutos. Foram as sensações mais fortes. Depois disso, passei a sentir algumas alterações corporais. Sentia meu corpo bastante quente e o meu rosto ficou adormecido, como se eu tivesse recebido uma anestesia por um bom tempo. Minha respiração também estava alterada, mais acelerada, talvez por causa do meu pânico anterior. Mas tudo já estava plenamente sob controle. Tinha retomado minha consciência, meu “eu”. Procurei relaxar mais. Fechei os olhos e tentei fazer alguns exercícios de respiração. Sentia que poderia relaxar ou meditar com facilidade, como se tivesse aberto uma espécie de canal, de link na minha mente para entrar num tipo de estado “zen”. Mas me desconcentrei ao ouvir meus amigos conversando. Eu abri os olhos e comecei a conversar com eles. Provavelmente, se estivesse sozinha ou num ambiente ritual onde não fosse possível conversar com as pessoas, poderia ter tido uma experiência intensa de meditação. Agora penso que talvez a experiência sensorial de desintegração do meu eu (corpo e mente), tenha me colocado num estado de abertura para uma experiência de indistinção ou para o que se chama muitas vezes (em práticas como a ioga, por exemplo) de encontro com o infinito, com o todo etc.
No dia seguinte, além de me sentir extremamente bem disposta, tive algumas alterações em termos de percepções visuais, similares as que se tem no dia que se segue a uma experiência com ácido, embora mais sutis. Percebia algumas imagens (como fotos e ilustrações) com uma nitidez e minúcia muito maiores, observando cada um de seus detalhes. As cores estavam mais vivas e eu podia notar suas várias tonalidades e matizes. Sentia também minha inteligência mais aguçada, a mente alerta e ágil. Definitivamente, a experiência com a Sálvia parecia ter me feito muito bem, como se o mergulho na indistinção e o esquecimento de si que essa substância proporciona (mesmo que por apenas alguns minutos) tivessem me renovado, produzindo a sensação não só de estar experimentando o mundo de uma outra perspectiva mas de estar entrando em contato com ele e com suas “coisas” pela primeira vez.
Em 1960, um diálogo entre Aldous Huxley e Timothy Leary: « -...Todas essas drogas cerebrais produzidas em massa nos laborátórios provocarão mudanças enormes na sociedade. E isso vai acontecer independentemente de mim ou você. Tudo o que podemos fazer é espalhar a notícia. O maior obstáculo para a evolução, Timothy, é a Bíblia.
- Não me recordo de nenhuma discussão sobre drogas cerebrais na Bíblia.
- Você se esqueceu dos primeiros capítulos de Gênesis? Jeová disse para Adão e Eva : ‘Eu contruí esse refúgio maravilhoso a leste do Éden. Vocês podem fazer o que quiserem, exceto comer do fruto da árvore da Sabedoria’.
- Foi a primeira substância controlada.
- Exatamente. A Bíblia começa com uma lei antidrogas. »
Arabia: - tierra altiva Sólo del sol y del harem cautiva (...)
Un beso de mujer! - Yo lo he sabido Es un muy dulce instante extra - vivido - El árabe si llora, Al fantástico haschisch consuelo implora. El haschisch es la planta misteriosa, Fantástica poetisa de la tierra: Sabe las sombras de una noche hermosa Y canta y pinta cuanto en ella encierra. El ido trovador toma su lira: El árabe indolente haschisch aspira Y el árabe hace bien, porque esta planta Se aspira, aroma, narcotiza, y canta. Y el moro está dormido, Y el haschisch va cantando, Y el sueño va dejando, Armonías celestes en su oído. Muchos cielos ha el árabe, y en todos En todos hay amor, - pues sin amores, Qué azul diafanidad tuviera un cielo? Qué espléndido color las tristes flores? Y el buen haschisch lo sabe, Y no entona jamás cántico grave. Fiesta hace en le cerebro, Despierta en él imágenes galanas; El pinta de un arroyo el blando quiebro, El conoce el cantar de las mañanas, Y esta arábiga planta trovadora, No gime, no entristece, nunca llora; Sabe el misterio del azul del cielo, Sabe el murmullo del inquieto río, Sabe las estrellas y luz, sabe consuelo, Sabe la eternidad, corazón mío! (...)
Amor de mujer árabe! Despierta Esta mi cárcel miserable muerta; Tu frente por sobre mi frente loca: Oh beso de mujer, llama a mi puerta! Haschisch de mi dolor, ven a mi boca!
Publicado em:Revista Universal, Mexico, 1º de junho de 1875
Às vezes sinto uma compulsão junkie irresistível e me seguro enquanto posso, mas parece não haver saída além do abismo da tentação. E eu que acreditava já estar com o sangue limpo e a alma lavada!
Num esforço involuntário, meu corpo leva minha pessoa em busca do objeto de desejo tão maldito quanto deleitável. Tento passar sem olhar, evitar perceber que por ele minha vontade lambe o chão e joga a toalha no primeiro round. Entrementes, o hercúleo esforço esbarra na fraqueza da carne que se consome na ânsia eminente de um consumo inalienavelmente vil.
Começo a tremer e minhas mãos suam pelos pés. Meu coração dispara como um torpedo sem alvo. O ar paira pesado e quase asfixiado, me rendo a fraqueza da determinação que broxou diante da tentação exercida pelo imponderável.
Em desespero ontológico e patético, rendo-me a secura da boca que sonha uma fonte iminente, um álibi para saciar a sede de viver. Às cegas, como um peregrino procuraria um oásis no deserto, procuro um mercador de ilusões que esteja afim de lucrar e se divertir com a minha fraqueza. Enfim, de joelhos diante do oráculo que me decifra as entranhas enquanto me devora os últimos trocados, estendo os braços para rogar sem escrúpulos e sem vergonha da humilhação a qual me exporei em público:
- Pelo amor de Deus, me dá uma coca-cola aí!
Confissões de um Consumidor II
Adoro ler bula de remédio só pra saber se consumo ou se estou sendo consumido
A velha curandeira criou fama de ser uma especialista em ervas medicinais, pois fazia chás e infusões que curavam males do corpo e da alma. Vivia só sem nenhum luxo, mas era sempre muito procurada por quem morava nas redondezas e até por quem vinha de longe, muitas vezes só para consulta-la. Certa feita, ao procurar na mata fechada uma raiz raríssima, foi picada por uma cobra. Sem ter a quem recorrer, a ágil mulher ainda tentou cortar o pedaço de carne contaminado mas já era tarde; os músculos não obedeceram e ela sentiu que não tinha muito tempo até ser dominada pelo pânico. Correu em direção ao rio, mas sua visão turvada só conseguia fixar a imagem do réptil se afastando sorrateiramente. Vencida pelo imponderável, seu corpo tombou a beira do córrego. Seu olho esquerdo ficou aberto e emerso enquanto o direito fechou-se sob a água. Assim que as convulsões permitiram, um dos olhos foi possuído por uma visão:
O homem acende a vela o vento apaga a chama o tempo dispersa o vento a história divide o tempo O futuro não tem história. No presente, a pobreza gera incerteza e ainda se apega a fé. A fé extingue o buraco o buraco é fruto da reta a reta que termina em curva na chuva a dançarina nua. A dançarina é a primeira a acordar acordar não garante quem dorme os que dormem se secam na chuva a chuva que lava o espelho o espelho que inverte e verte. Inverso da dor é orgasmo o orgasmo que faz pouco do verme o verme está dentro do prato o prato que foi lavado a sangue. O sangue se mistura a água da vida que sonha e passa passa e deixa lá fora a visita que bate a porta. A porta se abre ao ladrão o ladrão pede esmola ao doutor o doutor recomenda: silêncio o silêncio mata mais que veneno veneno, champanhe, cálix bento.
Um grito único e infinitamente contínuo se espalhou pela mata. Toda a natureza parou para ouvir. Atordoada e ainda sem fôlego, a curandeira se ergueu num esforço supremo. Tão logo saiu da água olhou para o local da picada. Seus olhos desfocados tornam-se também confusos ao encontrar apenas uma borboleta tatuada no local. Apesar de seus guias espirituais terem recomendado uma pausa para reequilibrar as energias, nove dias apos o ocorrido a curandeira já estava atendendo a população. Assim que a assistente anunciou que a primeira paciente chegou, ela acendeu uma vela e fez uma oração. Quando a cliente entrou em seu consultório, junto entrou um vento rajado que imediatamente apagou a vela. A curandeira sentiu o coração disparar e em poucos minutos parou de respirar. A cliente chamou as assistentes, mas já era tarde. As assistentes e a cliente juram ter visto uma borboleta sair voando do tornozelo da curandeira e sumir na direção do sol.
[1]Episódio do livro Universos Profanos. Rio de Janeiro, Papel Virtual Editora, 2001; versão digital e impressa em: www.papelvirtual.com.br.